Novo Mineirão
Belo Horizonte, MG, Brasil 2012Inaugurado em 1965 (projeto original de Eduardo Mendes Guimarães Júnior e Gaspar Garreto) como o segundo maior estádio de futebol do mundo, o Mineirão se situa no entorno da Lagoa da Pampulha, próximo das obras seminais de Oscar Niemeyer e Burle Marx, sendo parte do principal cartão-postal de Belo Horizonte. Com a escolha do Brasil para sediar a Copa do Mundo de 2014, veio a oportunidade de transformar o tradicional estádio, cuja fachada é tombada, em um equipamento esportivo multifuncional contemporâneo. Nesse contexto, para transformar “O Gigante da Pampulha” em um moderno complexo multifuncional, procuramos intervir de forma ao mesmo tempo respeitosa e radical, reforçando a monumentalidade da estrutura original do Mineirão na icônica paisagem modernista.
UM ESTÁDIO PARA A CIDADE
Belo Horizonte. Um edifício modernista em uma paisagem modernista.
O Estádio do Mineirão e o bairro da Pampulha foram idealizados na década de 1940, no início da febre desenvolvimentista que regeria a política econômica do Brasil nos anos seguintes. Não por acaso, o mentor do Complexo de Lazer e Turismo da Pampulha foi Juscelino Kubitschek, então prefeito de Belo Horizonte, que convidou Oscar Niemeyer, Roberto Burle Marx e Cândido Portinari, entre outros, para imprimir a face moderna de seu projeto. Um ensaio bem-sucedido para sua Brasília das décadas de 1950 e 1960.
O Mineirão foi inaugurado em 1965 como o segundo maior estádio de futebol do mundo, com capacidade final para cerca de 130 mil pessoas. Com sua ritmada estrutura de concreto armado e volumetria monumental, projeto de Eduardo Mendes Guimarães Júnior e Gaspar Garreto, tornou-se um ícone na paisagem. Hoje, a Lagoa da Pampulha, os edifícios de Niemeyer e a estrutura do Mineirão são tombados.
Na época da construção, a Pampulha era um bairro isolado, a cerca de 10 km do centro consolidado de Belo Horizonte, mas hoje integra plenamente a mancha urbana da cidade e se encontra em um de seus eixos de expansão. Apesar de contar com boa infraestrutura, o bairro ainda carece de equipamentos urbanos e de melhor oferta de serviços.
Com a escolha do Brasil para sediar a Copa do Mundo de 2014 e a definição do Mineirão como sede de jogos do torneio, surgiu a oportunidade de transformar o Gigante da Pampulha em um complexo esportivo multifuncional, tendência dos estádios contemporâneos. O objetivo era oferecer uma variedade de serviços capazes de atrair a vizinhança e a cidade como um todo, garantindo a sustentabilidade econômica do complexo.
O instrumento escolhido para viabilizar esse modelo foi a parceria público-privada (PPP), na qual se definiu que a remodelação do estádio seria assumida por uma empresa que receberia, em contrapartida, a concessão de uso por 25 anos.
A empresa vencedora da licitação foi o Consórcio Minas Arena, que convidou os arquitetos da BCMF (Bruno Campos, Marcelo Fontes e Silvio Todeschi), de reconhecida experiência em arquitetura esportiva, para assumir o projeto executivo do Novo Mineirão. A BCMF já havia projetado o Complexo de Deodoro para os Jogos Pan-Americanos Rio 2007 e a maior parte dos estudos conceituais do dossiê da vitoriosa Candidatura Olímpica Rio 2016.
A tarefa consistiu em rever o projeto básico utilizado no termo de referência da licitação, assinado pela GPA&A e pela alemã GMP, e entregar um novo desenho arquitetônico alinhado às demandas do consórcio e da PPP. As inovações abrangeram desde a adequação a novos requisitos da Fifa, da Lei Geral da Copa e da nova Instrução Técnica do Corpo de Bombeiros, até novos conceitos para integrar o complexo ao seu contexto imediato e potencializar sua exploração comercial. Isso incluiu a reconfiguração da arquitetura externa (esplanada) e a extensão da cobertura, tudo dentro de um prazo enxuto.
As alterações internas do estádio responderam basicamente às exigências da Fifa: acessos, segurança, capacidade, visibilidade, áreas de imprensa, instalações dos atletas e logística. O destaque foi a extensão da cobertura, fundamental para o conforto do público (proteção contra intempéries) e para a qualidade das transmissões televisivas, eliminando o efeito de penumbra. Externamente, tornou-se necessário reconfigurar o uso do terreno, antes quase totalmente destinado a estacionamentos, para qualificar os acessos, os apoios ao estádio e viabilizar a operação comercial característica do modelo de PPP.
A análise da evolução das tipologias de estádios esportivos nas últimas décadas revela a tendência de incorporação de novos programas fora da arena, geralmente expressos de duas formas clássicas: a adição de um podium, uma plataforma horizontal na base do edifício — como nos estádios Green Point (África do Sul), Allianz Arena (Munique) e Castelão (Fortaleza) — ou o acoplamento de um volume vertical que forma um conjunto compacto, como no Itaquerão, em São Paulo.
No Mineirão, a adição de programa só poderia ocorrer por meio de um podium, já que o estádio é não apenas uma estrutura existente, mas tombada. A grande inovação da equipe da BCMF foi articular essa plataforma com a cidade e com o estádio. Subvertendo a solução clássica de podium, geralmente associada a um edifício horizontal, a plataforma foi esculpida no terreno, moldando-se a ele e organizando-se em uma série de praças escalonadas de uso semipúblico.
Essas praças são integradas em nível ao entorno imediato e percebidas como uma continuação do solo da cidade. Suaves rampas e planos inclinados, ladeando escadarias com proporções de arquibancada, garantem acessibilidade universal a todos os pontos, inclusive à arena. A aproximação do público é gradual, pontuada por diversas áreas de estar. A partir de uma delas, estabeleceu-se a conexão com o Ginásio do Mineirinho, sobre o sistema viário existente.
Toda a topografia artificial do térreo é destinada ao fluxo de pedestres e multidões. O subsolo, por sua vez, abriga uma complexa rede de fluxos operacionais e áreas de serviço, além de programas próprios da PPP (áreas comerciais e institucionais) e de exigência do poder público (Museu do Futebol, posto de saúde e juizado de pequenas causas). Cria-se, assim, uma setorização vertical (em corte) associada à tradicional setorização horizontal (em planta), separando o front of house, acima, do back of house, abaixo.
Em alguns pontos, porém, esses dois mundos se encontram: fachadas de lojas emergem à superfície da esplanada nos desníveis do terreno, estrategicamente posicionadas para ativar as diferentes plataformas. Somadas a um anfiteatro conformado pelas escadarias e à intenção de promover eventos públicos e atividades diversas, as lojas devem assegurar um fluxo contínuo de pessoas ao longo da semana, contribuindo tanto para a qualidade da experiência urbana quanto para a rentabilidade do empreendimento.
Enquanto os pórticos estruturais, a laje da cobertura e a arquibancada superior, todos tombados, foram preservados, os anéis intermediário e inferior foram demolidos, e o campo rebaixado em 3,40 m. Com isso, atenderam-se os requisitos técnicos da Fifa. Todas as arquibancadas receberam assentos numerados, ergonômicos e resistentes, em três tons de cinza, gerando um inusitado efeito pixelado, que funciona como fundo neutro para a comunicação visual de cores vibrantes dos quatro setores, projeto da Hardy Design. A capacidade do estádio passou a ser de 62.160 lugares.
A extensão da cobertura teve sua solução completamente redefinida. A equipe da Engeserj, responsável pelo projeto estrutural, baseou-se em estudos da UFMG sobre a estrutura de concreto do Mineirão e concluiu que seu esqueleto robusto e resistente poderia — e deveria — participar ativamente do novo sistema. A solução mista acompanha o ritmo dos 88 pórticos do estádio, apoiando-se neles e criando uma extensão em balanço de 26 metros.
O primeiro passo foi o alívio de tensões estruturais, por meio de um trabalho de protensão com macacos hidráulicos e cabos de aço. A estrutura, que havia cedido cerca de 30 cm ao longo dos anos, foi elevada acima de seu nível original para que, com a nova carga, retornasse a uma condição próxima à inicial. Em seguida, os pilares foram reforçados com sistemas de contraventamento, integrando chapas metálicas e tirantes de aço. Posteriormente, foram instaladas, uma a uma, treliças planas compostas por tubos de aço, engastadas em peças de concreto moldadas junto aos pórticos. Por fim, o conjunto recebeu uma membrana autolimpante.
Sobre a laje da estrutura existente foi instalada uma rede de painéis solares, transformando o Mineirão na maior usina fotovoltaica sobre cobertura do Brasil. A estimativa é de produção suficiente para atender cerca de 1.200 residências. A energia é disponibilizada para a rede pública, da qual o estádio a retoma para seu próprio uso. A água da chuva é coletada e reutilizada, e cerca de 90% do material demolido foi triturado e reaproveitado no novo concreto. As cadeiras e o gramado antigos foram doados a outros estádios.
O Estádio do Mineirão aponta caminhos sobre como megaeventos podem deixar um legado urbano duradouro. Ainda que as intervenções tenham ocorrido na escala do edifício, elas respondem a demandas de escalas maiores — do bairro e da cidade — por meio da incorporação de novos programas e da criação de praças e espaços semipúblicos. Assim, o solo da cidade se expande pela arquitetura.
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PremiaçãoMenção Honrosa no 8º Prêmio ASBEA na categoria Edifícios Institucionais2014Primeiros colocados na XV Premiação de Arquitetura IAB-MG (Instituto de Arquitetos do Brasil) na categoria "Obras construídas"2013
Status: Construído
Custo total da obra: R$654.000.000
Ano: 2012
Área construída: 348.900,00 m²
Capacidade: 62.160 espectadores
Localização: Pampulha, Belo Horizonte, MG
Autores: Bruno Campos, Marcelo Fontes, Silvio Todeschi
Consultores: Fernando Maculan, Mariza Machado Coelho, Carlos Teixeira
Equipe: Patricia Bueno, Leonardo Paes, Luciana Maciel, Michelle Moura, Mara Coelho, Leonardo Rodrigues, Joana Vieira, Carolina Eboli, Gabriela Jacobina, Henrique Amin, Isabel Garcia, Thiago Bandeira, Camila Belisario, Fani Frkovic, Demetris Venizelos, Daniela Ribeiro, Marta Guedan Vidal, Felix Morczinek
Cliente: Minas Arena
Consórcio Nova Arena BH: Construcap, Egesa e Hap Engenharia
Ar Condicionado: Conset Engenharia de Projetos
Comunicacao Visual: Hardy Design
Esquadrias: BM Consultoria
Estrutura de Concreto e Metalica: Engserj
Estrutura de Concreto Pre Moldado: Precon / Premo
Instalacoes Hidraulicas, Prevencao e Combate a Incendio: STE Engenharia
Instalacoes Eletricas, Acustica, Alarme e Deteccao de Incendio, Automacao e Sonorizacao: MHA
Luminotecnica: Arquitetura e Luz
Paisagismo e Supressão Vegetal: HS Jardinagem (com Rose Guedes) + BCMF Arquitetos (com Carlos Teixeira)
Recuperacao Estrutural / Impermeabilizacao: Recuperacao Patologias e Durabilidade das Construcoes
Sistema Viario: Tectran / Modelle
Terraplenagem: Tempro
Topografia: Gerais Topografia
Certificação Leed: CTE