MRV&Co
Brasil 2024Poucos agentes constroem tanta cidade quanto as grandes incorporadoras de habitação econômica. Cada empreendimento repete-se em dezenas de terrenos, em dezenas de municípios, e o que se decide no desenho de uma fachada deixa de ser um gesto de projeto para virar uma política de paisagem urbana. Foi com essa premissa que a BCMF Arquitetos assumiu o projeto de modernização das fachadas dos novos empreendimentos da MRV, a maior construtora da América Latina, com mais de 500 mil unidades entregues e lares para 1,6 milhão de pessoas, a convite da empresa, para revisar a identidade visual e arquitetônica dos edifícios de sua linha de entrada.
Poucos agentes constroem tanta cidade quanto as grandes incorporadoras de habitação econômica. Cada empreendimento repete-se em dezenas de terrenos, em dezenas de municípios, e o que se decide no desenho de uma fachada deixa de ser um gesto de projeto para virar uma política de paisagem urbana. Foi com essa premissa que a BCMF Arquitetos assumiu o projeto de modernização das fachadas dos novos empreendimentos da MRV, a maior construtora da América Latina, com mais de 500 mil unidades entregues e lares para 1,6 milhão de pessoas, a convite da empresa, para revisar a identidade visual e arquitetônica dos edifícios de sua linha de entrada.
O trabalho começou olhando para o que já está construído. O diagnóstico percorreu quatro elementos que definem a relação do empreendimento com a rua: fachadas, muros, guaritas e paisagismo. A mudança resulta de uma pesquisa nacional com clientes da marca e foi coordenada pela Diretoria de Produtos e Projetos da MRV&CO, ampliando o olhar para experiências que vão além da estética. O que ele revelou foi um repertório acumulado por sucessivas decisões pontuais — fachadas resolvidas por manchas de cor sobre um mesmo volume, guaritas com pórticos de linguagens díspares, canteiros genéricos e, sobretudo, quilômetros de muro cego. Em muitas unidades, esse muro vem acompanhado de uma placa dirigida ao pichador, pedindo trégua. A placa é o sintoma: onde a arquitetura não oferece nada à calçada, a calçada devolve o que pode.
A partir daí, o projeto não partiu de um estilo, mas de três atributos que a própria marca reivindica — sustentabilidade, bem-estar e solidez — e da busca de uma tradução arquitetônica honesta para cada um deles. O uso racional de materiais, a durabilidade e a funcionalidade orientaram as soluções, sustentabilidade como relação com o clima e com a vegetação, não como selo. Bem-estar como espaço de permanência, sombra e convívio. Solidez como permanência material e clareza construtiva.
O repertório de referências foi montado para ancorar esses atributos em algo que já é nosso. De um lado, a natureza brasileira: os biomas, a flora, a biofilia como princípio de projeto. De outro, uma linhagem de cultura visual — Burle Marx e o desenho da paisagem como composição abstrata; o modernismo brasileiro e sua economia de meios; o concretismo e a geometria como sistema; e a arquitetura contemporânea brasileira, com seu domínio do cobogó, do elemento vazado, da luz filtrada.
Dessa investigação nasceu a paleta cromática do projeto. Em vez de cores escolhidas por catálogo, as tonalidades foram extraídas diretamente de fotografias da Mata Atlântica, do Cerrado, do Pantanal, dos Pampas, da Amazônia e da Caatinga. Inspiradas nos seis biomas brasileiros, cada tonalidade entrega um conjunto próprio — os verdes profundos e úmidos da mata, os ocres e amarelos secos do cerrado, os azuis do céu pantaneiro, os terrosos da caatinga. O sistema permite que um empreendimento em Belém e outro em Porto Alegre pertençam à mesma família e, ainda assim, respondam ao lugar onde estão. É o oposto do produto idêntico em qualquer latitude: um catálogo com regra e com variação.
A diretriz mais direta do estudo diz respeito ao muro. A proposta substitui a vedação maciça por uma superfície permeável — um sistema de elementos vazados que mantém a segurança, mas devolve transparência, ventilação e sombra projetada à calçada. O muro deixa de ser um paredão inerte e passa a ser fachada: o primeiro plano de arquitetura que o morador e o pedestre encontram. Guaritas e paisagismo seguem a mesma lógica, tratados como parte de um conjunto e não como itens avulsos de orçamento.
As novas fachadas unem design contemporâneo e identidade regional, sem custo adicional ao cliente, fazendo com que a atualização da linguagem arquitetônica esteja associada também a critérios de viabilidade e aplicação em escala.
O estudo se resume em três palavras: brasilidade, contextualidade, contemporaneidade. Brasilidade porque a matéria-prima do repertório é o território. Contextualidade porque o sistema responde ao clima, à paisagem e à cultura de cada implantação. Contemporaneidade porque o desenho é de hoje, sem citação nostálgica.
Há um argumento de mercado por trás — a demanda crescente por empreendimentos mais humanizados, que hoje pesa na decisão de compra. Mas o que está em jogo é maior: quando esse repertório se multiplica por milhares de unidades ao ano, uma decisão de fachada vira, de fato, desenho de cidade.
Projeto: MRV&CO
Localização: Brasil
Ano: 2024
Arquitetura: Bruno Campos, Marcelo Fontes e Silvio Todeschi (autores), Paula Pedrosa (planejamento), Lucas Andrade, Lucas Moreira e Maria Carolina Resende (equipe)
Status: Projeto