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Colégio Bernoulli Vale do Sereno

O campus do Colégio Bernoulli no Vale do Sereno inaugura uma pesquisa desenvolvida pela BCMF Arquitetos sobre a arquitetura dos espaços de aprendizagem. Concebido como o primeiro de uma série de novos campi para a instituição, o projeto estabeleceu princípios espaciais, construtivos e operacionais que passaram a orientar as unidades de Salvador, Cidade Jardim e, posteriormente, São Paulo. Durante seu desenvolvimento (iniciado em 2018), entretanto, a pandemia de COVID-19 impactou as formas de ensinar, aprender e trabalhar. O projeto precisou ser integralmente revisto para incorporar novas exigências relacionadas à flexibilidade dos ambientes, à infraestrutura tecnológica, à qualidade ambiental e à ampliação dos espaços de convivência e aprendizagem informal. Embora tenha sido o primeiro a ser concebido, tornou-se o último a ser concluído e também o maior e mais complexo dos projetos desenvolvidos para o Grupo Bernoulli.

O terreno de aproximadamente 9.400 m² localiza-se no Vale do Sereno, entre Belo Horizonte e Nova Lima, uma região que, nas últimas décadas, consolidou-se como um importante vetor de expansão urbana da metrópole. Marcado pela presença de edifícios residenciais de grande porte e por uma paisagem montanhosa de forte identidade, o lote apresenta um desnível transversal de quase 18 metros, condição que determina toda a lógica do projeto. A arquitetura distribui cerca de 40.000 m² em uma volumetria predominantemente horizontal em contraste com as torres residenciais do entorno, constituindo uma alternativa ao modelo de ocupação que marcou o desenvolvimento recente do Vale do Sereno.

A predominância de torres altas implantadas sobre extensos embasamentos de estacionamento consolidou uma paisagem de edifícios autossuficientes, com acessos concentrados em uma única via, pouca relação com a topografia e reduzida interação com o espaço público. O resultado é uma urbanidade fragmentada, na qual cada empreendimento funciona como um enclave: ruas transformam-se em fundos de lote, as fachadas permanecem inativas, inexistem usos capazes de qualificar a vida cotidiana e até mesmo deslocamentos de pequena distância frequentemente dependem dos carros, mesmo entre edifícios vizinhos.

Em contraposição a essa lógica, o Bernoulli ocupa integralmente o quarteirão e estabelece relações simultâneas com todas as ruas que o delimitam. As diferentes cotas do terreno permitem organizar naturalmente os acessos, reduzindo percursos e conectando o edifício à cidade em todas as suas frentes. Cada fachada participa da vida urbana, eliminando a distinção entre frente e fundos e transformando o conjunto em uma infraestrutura permeável. A escola deixa de ser compreendida como um objeto isolado implantado sobre o terreno para constituir uma continuidade entre topografia, arquitetura, paisagem e cidade.

O programa organiza-se em dois sistemas complementares. A base horizontal reúne os espaços destinados ao ensino, esporte, cultura e convivência. A torre concentra as atividades administrativas do Sistema de Ensino Bernoulli. Entre ambos localiza-se o núcleo principal de circulação, implantado no nível de acesso principal (Rua Jacarandá), responsável por distribuir os fluxos para todos os pavimentos e articular os principais equipamentos de uso coletivo: um auditório com 400 lugares, ginásio multiuso coberto, duas quadras poliesportivas descobertas, restaurantes, terraços, áreas de convivência e um estacionamento com capacidade para mais de 450 veículos, dotado de embarque e desembarque interno. A partir desse nível, os pavimentos inferiores acomodam os ambientes da Educação Infantil, do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, enquanto os níveis superiores concentram áreas de apoio, restaurantes, terraços e os espaços corporativos.

A organização do edifício parte de um entendimento simples: em uma escola contemporânea, aprender não acontece apenas dentro da sala de aula. Grande parte da experiência cotidiana ocorre nos deslocamentos, nos encontros informais, nas áreas de permanência e nos espaços compartilhados. Em consequência, a circulação deixa de desempenhar apenas uma função distributiva e passa a integrar o programa arquitetônico. Rampas, escadas, arquibancadas, vazios, passarelas, patamares e terraços constituem uma sequência contínua de espaços apropriáveis para estudo, descanso, convivência e atividades espontâneas. Os chamados espaços residuais deixam de existir; cada metro quadrado participa da experiência pedagógica.

Essa compreensão, presente desde as premissas iniciais do projeto, mostrou-se ainda mais pertinente durante a pandemia. A diversidade dos ambientes, internos e externos, a variação de pés-direitos, a ventilação cruzada e a possibilidade de diferentes formas de interação, já incorporadas à sua concepção, revelaram-se particularmente adequadas àquele contexto. A revisão realizada no período reforçou o papel dos espaços intermediários e sua capacidade de acomodar transformações futuras, reforçando a organização original do projeto.

A composição arquitetônica decorre da articulação de quatro volumes principais implantados sobre uma mesma modulação estrutural: o ginásio, de geometria trapezoidal; o auditório, retangular; a torre administrativa, concebida como um volume compacto; e o edifício longitudinal da escola. Cada volume responde às exigências específicas do programa, enquanto a modulação comum coordena estrutura, arquitetura, instalações e vedações. Essa lógica simplifica a construção, racionaliza o processo executivo e permite adaptações futuras sem alterar a organização espacial do conjunto. Flexibilidade, nesse contexto, não significa espaços genéricos, mas um sistema construtivo capaz de evoluir ao longo do tempo.

Essa ideia seria posteriormente aprofundada nas demais unidades do Bernoulli. Em Salvador, a modularidade e a industrialização tornam-se os elementos estruturadores da arquitetura; em Cidade Jardim, o mesmo raciocínio é aplicado à transformação e adaptação de um conjunto histórico tombado. O campus do Vale do Sereno representa o ponto de partida dessa investigação e sua formulação mais abrangente.

A materialidade acompanha a mesma lógica de precisão e racionalidade. Concreto aparente, vidro, chapas metálicas expandidas, brises e venezianas de alumínio são empregados segundo as condições específicas de cada fachada, conciliando desempenho ambiental, sustentabilidade, durabilidade e expressão arquitetônica. A arquitetura utiliza poucos materiais, explorando suas propriedades de forma consistente, sem distinção entre desempenho técnico e linguagem formal.

Os dispositivos de proteção solar foram dimensionados a partir de estudos específicos para cada orientação, reduzindo a incidência direta da radiação, controlando o ofuscamento, preservando a iluminação natural e diminuindo a carga térmica dos ambientes. A solução reduz a dependência e aumenta a eficiência de climatização e iluminação artificial, melhora o conforto dos usuários e mantém a permeabilidade visual para a paisagem, condição considerada essencial para a qualidade dos espaços de aprendizagem.

A infraestrutura técnica permanece aparente em grande parte dos ambientes. Instalações elétricas, hidráulicas, climatização, sistemas especiais e demais redes foram organizadas para facilitar manutenção, inspeção e futuras adaptações. Essa decisão responde tanto à racionalidade construtiva quanto à necessidade de uma arquitetura preparada para acompanhar as constantes transformações dos processos pedagógicos e tecnológicos.

O sistema de comunicação visual foi desenvolvido como parte integrante da arquitetura. Sinalização, cores, grafismos e elementos modulares organizam os ambientes, orientam os percursos e constroem uma identidade institucional comum às diferentes unidades do Bernoulli, preservando ao mesmo tempo a especificidade de cada contexto urbano. Arquitetura, interiores, iluminação, comunicação visual e paisagismo deixam de constituir disciplinas independentes para formar um único sistema espacial.

A experiência adquirida ao longo desse processo consolidou uma linguagem arquitetônica própria para os campi do Bernoulli. Cada unidade responde às condições específicas de seu lugar — a topografia em Nova Lima, a industrialização em Salvador e a pre

Bernoulli Vale do Sereno Projeto Arquitetônico Executivo

Projeto: Bernoulli Vale do Sereno
Localização: Nova Lima, MG
Ano: 2018
Área: 36.910,35 m²
Arquitetura: BCMF Arquitetos
Autores: Bruno Campos, Marcelo Fontes e Silvio Todeschi
Equipe: Júlia Hardy, Raquel Duarte (Coordenação), Paula (Planejamento), Patrícia Campos, Sávio Oliveira, Júlia Fleury, Maria Clara Sales, Elora Abritta, Maria Carolina, Marcos Sales, Pedro Leão, Lucas Moreira, Lucas Fakuda, Mariana Lima, Octavio Penna, Vivian Lopes, Carolina Cruz e Caio Nepomuceno
Comunicação Visual, Sinalização, Ambientação: Hardy Design
Status: Projeto
Gerenciamento dos Projetos e Obra: Três Pontos Gerenciamento de Obras Ltda
Elaboração dos Estudos Técnicos da Flora Local/ Paisagismo/ Drenagem: UMA Gestão de Projetos
Elaboração dos Estudos Técnicos de Impacto de Trânsito: BETA Engenharia e Arquitetura
Elaboração dos Projetos de Instalações Complementares: Projelet/ Ecom – Projeto de Sistemas Prediais Ltda
Elaboração dos Estudos e Projetos Geotécnicos: Consulgeo – Consultoria e Projetos Geotécnicos
Elaboração dos Projetos de Fundação Superficial e Estrutural: Bedê Engenharia
Elaboração do Projeto de Climatização: Climatizar Engenharia Térmica e Automação
Elaboração Projeto de Esquadria: BM Consultoria em Consultoria Ltda
Elaboração Projeto de Acústica: Oppus Acústica Ltda
Elaboração Projeto de Iluminação: Atiaîa Lighting Design
Consultoria para Elaboração de Projetos – Sistemas Eletrônicos: SOMITEC Sociedade de Montagem e Instalações Técnicas Ltda
Elaboração de Projeto de Sonorização: Schneider & Vilkn Audio Ltda
Elaboração de Projeto de Mecânica e Iluminação Cênica de Teatro: RPP Criação e Produção Ltda
Elaboração de Projeto de Programa de Recebimento e Controle de Efluentes Não Domésticos – Precend: CNT Ambiental Equipamentos, Produtos e Serviços Ltda
Consultoria em Eficiência Energética e Sustentabilidade: ARES Eficiência Energética e Sustentabilidade Ltda
Elaboração de Projeto de Impermeabilização: Firmino Siqueira Consultores Associados Ltda
Elaboração de Projeto de Drenagem Superficial: Consulgeo – Consultoria e Projetos Geotécnicos
Consultoria da Estação de Tratamento de Efluentes: Águas Engenharia Ltda
Execução das Obras: Construtora Caparaó S/ A

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