"Laje": Espaço de Eventos Google SP

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O novo “Espaço de Eventos” do escritório do Google em SP está implantado no último andar do bloco central do icônico edifício Pátio Malzoni, na Avenida Faria Lima. O projeto atende a um programa constituído basicamente por foyer, auditório (“tech talk”) e uma sala multiuso, além de áreas de apoio como sanitários, depósitos, catering e cômodos técnicos.

O partido arquitetônico adotado estabelece uma organização linear, simples e clara dos espaços, permitindo a compreensão da hierarquia entre os principais ambientes de uso compartilhado e as demais áreas de suporte.

A articulação espacial entre o foyer, o auditório (“tech talk”) e a sala multiuso (“multipurpose room”) é feita por dois blocos intermediários de apenas um pavimento, e portanto mais baixos em relação à ampla espacialidade da laje, que possui pé-direito duplo.

Conceito e origem da forma

A solução funcional de organização dos setores do projeto em planta responde simultaneamente, e desde os primeiros momentos da concepção arquitetônica, a questões de ordem conceitual e simbólica.

Nos estudos iniciais, já se apresentavam como caminhos potenciais a construção espacial a partir de princípios de forma e contra-forma, ritmo e silêncio. Espaços potencialmente “escavados”, onde o vazio pode assumir a importância de espaço positivo, espaço “entre”, escultórico.

A canção “Sampa”, tributo de Caetano Veloso à SP, é a metáfora utilizada para expressar em um só tempo a estratégia “musical” de concepção do espaço e a referência à cidade de São Paulo, inspiração principal do projeto.

Construção da forma

As melhores características da “Laje”, como espaço interno, são as suas dimensões generosas (40m de comprimento por 9m de largura e 7,50m de altura) e a sua própria localização estratégica no emblemático edifício. A área ocupa o pavimento mais alto do bloco central que conecta os blocos laterais como uma ponte, formando um pórtico (ou um vazio) monumental no conjunto.

Uma vez que o espaço, em planta, é inevitavelmente compartimentado pelas necessidades do programa principal e áreas de apoio, reserva-se ao forro o papel cenográfico de um elemento que possa estabelecer a continuidade espacial e comunicar o conceito escolhido.

Os dados musicais de “Sampa” são utilizados como informação para o processo de design paramétrico, tendo seu gráfico de frequência e amplitude por tempo convertidos no desenho dos elementos estruturais do forro ao longo de toda sua extensão.

A conversão do gráfico tridimensional da música na geometria do forro poderia ocorrer com os mais diversos componentes, bidimensionais ou não, resultando em diferentes  superfícies, texturas e visualizações da forma da música.

Em mais uma referência indireta à cidade (Edifício Copan), optamos por uma sucessão de elementos planos que pudessem ser cortados industrialmente em uma forma sinuosa por máquinas operadas por CNC (computer numeric control). Cada elemento, ou “costela” descreve um percurso único no espaço e desce junto às paredes e esquadria laterais. A justaposição desses 173 elementos (pórticos) de desenho irregular e espaçados a cada 25cm cria a percepção de um espaço de geometria complexa, ainda que sua execução seja razoavelmente simples.

Ambiência (Luz e Cor)

A experiência da cor proposta neste espaço pretende ser radical. Um ambiente “monocromático”, dominado por tons de branco e cinza, e que pode ser completamente transformado pela luz artificial através de recursos de troca de cor.

As “costelas” de alumínio (chapas compostas com polietileno – ACM) e as paredes possuem superfícies na cor branca, contribuindo para a distribuição de luz natural e artificial. Associado a outros materiais de tons neutros, como o carpete cinza em toda a extensão do piso, a superfície ondulada do forro determina a ambiência luminosa e difusa, algo próximo da percepção de uma nuvem.

A percepção da LAJE é bem diferente durante o dia e durante a noite. No primeiro, há influência da luz natural no espaço – as variações externas do clima são perceptíveis, com a mudança da projeção de sombras das costelas verticais. Durante a noite, ou em momentos de menor luminosidade natural, a iluminação artificial conduz a experiência do espaço. 

As soluções de iluminação ora reforçam a imaterialidade e o volume da arquitetura (o vazio, o silêncio), ora destacam a sua materialidade (o ritmo e a geometria complexa), revelando as texturas do forro/paredes e os materiais de revestimento. Dispostas de maneira intercalada acima das costelas, as luminárias de sobrepor dão leves efeitos de luz e sombra. Estes contrastes difusos ajudam na leitura das superfícies das costelas, dando uma percepção de movimento à “topografia” do forro.

Na varanda, os usuários são convidados a apreciar o dia e a noite. Não há acréscimo de luz, a não ser no jardim, na parte posterior do banco, de maneira a demarcar os limites do espaço e destacar o paisagismo. Há um vazamento da luz interior durante a noite, criando um pano de fundo para o ambiente.

A experiência de cor acontece no foyer através do uso conjunto de recursos RGB (luz) e CMYK (impressão) no painel de display da logo GOOGLE, trabalhado de forma integrada entre iluminação e design gráfico. De acordo com a programação da cor da luz, as cores do painel ora desaparecem ou ganham saturação, revelando a marca do cliente, texturas e layouts diferentes, surpreendendo os visitantes.

Sinalização e Branding

As amplas paredes que delimitam as extremidades do espaço (no Foyer e na Sala Multiuso) receberam o “Mapa Nolli” da cidade de São Paulo. A sede do Google São Paulo é georeferenciada em cada um deles, o que nos estimula a decifrar outros pontos relevantes da cidade. Cada mapa ocupa uma área aproximada de 50m² (8m x 6m) e são idênticos na forma, mas com as cores dos elementos de figuras e fundo invertidas.  Em um dos extremos vemos o que podemos interpretar como a versão matutina da cidade. No outro, temos a versão negativa, noturna, a cidade que nunca dorme.

 Os equipamentos de sinalização dialogam com a fluidez e a leveza sugerida pela “topografia” irregular do forro, tradução formal da música Sampa, explorando também os avessos. De modo geral, optamos por trabalhar invertendo as cores dos elementos para demarcar as áreas de comunicação visual.

Carpetes para sinalização direcional foram customizados com exclusividade para o Google, por meio de um processo de vulcanização, e contam com uma escala ampliada para facilitar a leitura, mesmo com pessoas transitando sobre eles. Os elementos aéreos complementares, por sua vez, flutuam entre aletas laterais e a fixação perfeitamente alinhada à borda contribui para a clara noção de continuidade espacial.

No Foyer, superado o impacto inicial provocado pelo forro cenográfico, nos deparamos com um painel com a marca do Google em larga escala, instalado atrás de módulos de chapa perfurada. Projetado levando em conta as premissas construtivas originais do próprio logotipo do Google, o painel é formado pela marca e por quartos de círculo rotacionados livremente e coloridos aleatoriamente com cores gráficas primárias.

Daí, um truque se revela: ao interagir as cores-tinta (CMYK) com variações de cores-luz (RGB) que iluminam o painel, temos um efeito ótico instigante. O grafismo muda de forma completamente “analógica” ou “low tech”, sem recursos de telas e equipamentos tecnológico sofisticados, apenas pela anulação das cores impressas no painel pelas cores-luz projetadas nele.  O layer de chapa perfurada contribui ainda mais para a ilusão, fortalecendo o convite à descoberta dos mais diversos elementos que constituem e fazem do espaço Laje um local de cruzamentos, trocas, entretenimento e conhecimento.

Ilusão

Em planta, os dois blocos de apoio abrigam banheiros, depósitos e áreas técnicas, assumindo também a função de isolamento acústico entre os espaços principais que separam. Em cada bloco, dois painéis acústicos revestidos com espelhos criam as antecâmaras entre o auditório (“tech talk”) e os dois ambientes vizinhos – foyer e sala multiuso (“multipurpose room”).

A geometria do forro está compromissada com a representação literal dos dados da canção “Sampa”, em todo o tempo de duração da música e ao longo de todo a extensão do espaço. Dessa forma, a música literalmente “esculpe” o espaço interno experienciado pelo visitante em seu percurso pelos ambientes da Laje.

As superfícies de espelhos, que separam os espaços principais junto aos blocos de apoio, interceptam esse percurso e acrescentam novas leituras, ilusórias e ambíguas em relação à continuidade ou à descontinuidade do espaço. O “avesso do avesso”.




Projeto Espaço de Eventos Google, São Paulo (Brasil)

Ano 2017/ 2018

Área 600 m2

Cliente Google

Management Google / CBRE

Arquitetos Bruno Campos, Marcelo Fontes e Silvio Todeschi (BCMF Arquitetos), Fernando Maculan e Mariza Machado Coelho (MACh Arquitetos)

Design Gráfico / Sinalização Hardy Design

Iluminação Atiaîa Design (Mariana Novaes)

Fotos Maíra Acayaba