Centro de Engenharia do Google

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O escritório ocupa os quatro últimos andares da Boulevard Tower, que faz parte de um complexo de uso misto inaugurado em 2010 na avenida dos Andradas – eixo que corta a cidade de Belo Horizonte de leste a oeste ao longo do ribeirão Arrudas.

O briefing pedia referências conceituais fortes que pudessem relacionar o projeto da nova sede com a cidade de Belo Horizonte e o estado de Minas Gerais. Esta parece ser uma busca recorrente do Google: estabelecer uma conexão simbólica de seus escritórios com o lugar em que se inserem, tornando‑os individualizados nas diferentes partes do mundo, sem negar sua natureza cosmopolita como um denominador comum.

Conceitos Principais

Dessa forma, o binômio “Cultura Google + Cultura Local” foi a principal chave para o estabelecimento de um conceito forte para o projeto. Identificamos uma série de aspectos comuns, frequentemente percebidos ou valorizados nas duas culturas, e notamos que se referiam na maior parte dos casos a modos particulares de relacionamento entre as pessoas.

Essa percepção nos trouxe a pista para o que se tornaria o conceito guarda‑chuva do projeto: “network, ou as redes de trabalho e relacionamento de forma geral que, entendidas mais literalmente poderiam nos sugerir uma variedade de recursos formais.

Por outro lado, “Cultura Google” e a “Cultura Local” são também distintas em vários aspectos, o que nos pareceu uma boa oportunidade para trabalhar com contrastes de cores e formas, associadas às duas narrativas principais, que por sua vez estariam conectadas diretamente às duas principais tipologias de espaços do escritório: as “áreas de trabalho” (estações e salas de reunião) e os “espaços de convivência” (encontro, refeições, ócio, saúde e esporte).

Distribuição dos Espaços

O novo escritório do Google em BH possui uma característica comum a outros escritórios da empresa espalhados pelo mundo. Trata‑se do fato de possuir uma área de convívio quase tão grande quanto a área de trabalho formal (na ilustração, ver em azul as áreas de trabalho, em laranja as áreas de convívio e em cinza as áreas de serviço).

Os dois primeiros andares são quase que exclusivamente dedicados às estações de trabalho e às salas de reunião, ao passo que os dois andares superiores são dedicados aos espaços de convivência, ócio e promoção do bem-estar no trabalho (onde estão situados, por exemplo, as salas de massagem, pilates, barbearia, jogos, enfermaria e etc).

Diferentemente dos projetos convencionais, nos quais é imperativo otimizar ao máximo as áreas de trabalho, foram previstos espaços lúdicos que também podem ser utilizados como espaço de trabalho, de modo que as duas coisas estivessem constantemente interligadas.

Materiais e Texturas

Os materiais foram escolhidos de acordo com o ambiente: de “trabalho” ou de “convivência”. Nos espaços de trabalho foram utilizados materiais que fazem referência ao digital (ou “imaterial”): vidro, retículas, muita transparência, superfícies lisas, tudo para tornar o ambiente o mais imersivo possível.  Nos espaços de convivência, as referências dos materiais vieram da própria cultura mineira: materiais táteis, com bastante textura, tons terrosos, treliças, tramas e muxarabis. A base da paleta cromática utilizada no escritório também reforça o conceito, com tons azulados predominando nas áreas de trabalho e tons avermelhados nas áreas de convívio.

Climatologia e Design: Nuvens Paramétricas

A solução de fechamento das salas de reunião, presentes nos três andares inferiores, foi pensada para resolver dois requerimentos aparentemente divergentes: transparência e privacidade. Por um lado, a transparência é um fator determinante no escritório da Google, uma vez que não há hierarquia rígida e é importante saber se um determinado espaço está disponível. Por outro lado, é necessário sigilo sobre algumas imagens transmitidas pelas telas das salas de reunião.

Desde o início, tínhamos a intenção de incluir uma solução que fosse fruto de processos computacionais de programação entre as narrativas do projeto. Passamos a imaginar que as superfícies de privacidade poderiam conter informações que representassem algum conteúdo relevante, ou seja, soluções formais que atuassem como grandes infográficos. A programação, mais especificamente o design paramétrico (desenvolvido em parceria com a SUBdV) foi a maneira de gerar os mapas visuais com resultados estéticos inesperados e improváveis, que depois seriam manipulados para obter o resultado final.

Buscamos na climatologia o conteúdo que seria utilizado (consultoria do Prof. Alceu Raposo, da PUC-MG), em virtude dos conceitos originais associados aos espaços de trabalho: etéreo, nuvem, movimento, etc. Os três temas definidos para os pavimentos 14, 15 e 16 foram definidos, respectivamente, como “Umidade / Precipitação”, “Velocidade / Direção dos Ventos” e “Pressão Atmosférica”. A distribuição vertical dos temas refere‑se às camadas atmosféricas em diferentes altitudes e a uma expansão territorial: os dados de umidade, precipitação e ventos são referentes a Belo Horizonte, ao passo que os dados de pressão são globais.

Ambientação e Iluminação

O escritório da Google pode ser dividido em dois tipos de área, os espaços de trabalho e os espaços de convivência. Quando decidimos que a climatologia seria o conceito norteador na organização da ambientação, as referências de temperatura foram um desdobramento natural para a paleta de cores, com as temperaturas mais frias em um tom azulado e as mais quentes em um tom avermelhado. Determinamos que os espaços de trabalho, por exigirem maior concentração, seriam as “áreas frias”, e que os espaços de convivência seriam as “áreas quentes”. Para representar visualmente a variação, resolvemos que a escada funcionaria como um “termômetro gráfico”, no qual a gradação de cores indicaria para qual tipo de área pessoa está se dirigindo.

Este conceito também foi aplicado nas soluções de iluminação. Contrastes em temperatura de cor somados à seleção de cores de superfícies também contribuíram para diferenciar as áreas de trabalho das áreas comuns, de descompressão. Enquanto as áreas de trabalho têm cores claras e frias, além de luz branca neutra (que acelera ciclos biológicos e reforça a leitura de tons frios), as micro-kitchens têm cores terrosas e quentes, e luz difusa com temperatura de cor branco quente – 2700K a 3000K (que desacelera os ciclos biológicos e reforçam a leitura de tons quentes).

O layout modular das áreas de trabalho e a aparente simplicidade técnica não revelam o alto nível de sofisticação do mobiliário e da iluminação empregados. O mobiliário foi desenvolvido diretamente especialmente para permitir as mais diversas situações de trabalho, com o usuário sentado diretamente no carpete, de pé, ou em qualquer ponto intermediário, bastando um clique para acionar o sistema elétrico. Divisórias de vidro leitoso são “páginas em branco” para os engenheiros rabiscarem suas linhas de algoritmos em processo.

A iluminação desses espaços cumpre as exigências de conforto visual ao evitar contrastes e brilhos no campo de visão. A solução adotada permite uma distribuição de luz uniforme e difusa, sem geração de sombras nas áreas de tarefa. Ao final da montagem, o ambiente de trabalho tem uma aparência homogênea e monocromática, o que é a condição perfeita para que cada googler possa customizar sua própria estação e construir a imagem viva, típica de um escritório do Google.

Nas áreas de convivência foram destacados elementos gráficos, cores, texturas dos materiais e instalações – a iluminação assumiu um caráter mais cenográfico, barroco e mineiro. Em outros momentos, o design de iluminação assumiu uma linguagem gráfica, fazendo alusão a palavras-chave e conceitos do projeto. Por exemplo, no tech talk, pilates e sala de música, onde o networking e as conexões são importantes – sejam de trabalho ou com o corpo e a mente, tramas de luz foram desenhadas no espaço. Nas salas de reunião, retículas de luz se referem ao digital, à conexão de pontos e ideias. Nas áreas de trabalho, ritmos de maior e menor concentração de luz fazem referência a momentos de produção e pausa.

Paisagismo Rupestre, Paisagismo Tecnológico

A paisagem vista do escritório caracteriza‑se por cadeias de montanhas com uma vegetação rasteira de ervas, gramíneas e arbustos. Trata‑se de uma vegetação que se estende pelo norte de Minas em direção à cidade de Diamantina, mas que chega até a Bahia ao longo de toda a Cadeia do Espinhaço, constituindo os chamados Campos Rupestres.

A maneira de apresentar essas espécies no escritório do Google responde à sua própria característica biológica. As Tilandsias, que não precisam de substrato, mas apenas de vapor de água para sobreviver, estão colocadas em esferas de vidro de vários tamanhos, ventiladas por orifícios. Os três conjuntos de esferas presentes no “Google Park” (foyer do auditório) assemelham‑se a bolhas de sabão, em mais uma alusão à atividade de um ambiente a céu aberto, típico das praças e parques urbanos.

Um sistema de prateleiras com centenas de potes com espécies reproduzidas “in vitro” e alimentadas por um gel nutritivo está montado no mesmo espaço do Google Park. O conjunto recebe iluminação difusa por dez horas diárias, o que mantem as mudas saudáveis e em crescimento normal para que sejam utilizadas no ciclo produtivo de alimentos do escritório. Esse painel ilustra bem, tanto imagética quanto funcionalmente, o que o biólogo Luiz Glück defende como o conceito de “Paisagismo Tecnológico” proposto para o Google. Embora fechados, há certa troca de ar pela tampa dos potes de vidro, o que permite com que sutis variações da qualidade do ar sejam percebidas pelo surgimento de fungos. Outras espécies como os Imbés e as Columéias‑Peixinho, que dependem de substrato, foram plantadas em cachepôs de cerâmica e pendurados em diferentes espaços, como no Restaurante, nas Micro Kitchens e nos espaços de trabalho.

“Não-Recepção”: Códigos e Biblioteca

A recepção desse escritório da Google não tem uma pessoa como recepcionista. Um dispositivo digital para auxiliar na recepção foi empregado pela primeira vez, o que propõe uma virada radical nos formatos pré‑estabelecidos para esse tipo de espaço.

A substituição da área de recepção por uma biblioteca foi uma solução que nos pareceu natural, considerando‑se que uma biblioteca, assim como a ferramenta da Google, organiza seu acervo através de um criterioso sistema de busca. Pensamos ainda que tal solução instigaria os usuários a refletir sobre a relação entre o digital e o analógico. A “não-recepção” transformada em biblioteca é também um espaço acolhedor e funciona como uma sala de estar, onde os visitantes podem se entreter enquanto não são atendidos e os googlers podem fazer pesquisas ou relaxar durante o dia. Grande parte dos livros da biblioteca foi escolhida pelos próprios googlers.

As prateleiras possuem divisões verticais que compõe um ritmo modulado por iluminação em temperaturas de cor branco quente e neutro, escondendo as palavras Akwan e Google em código Morse. As luminárias dispostas nas prateleiras foram inspiradas nos algarismos digitais, e desenhadas especialmente para o Google, criando uma leitura única da marca naquela superfície.

Temperos Minerais

O Café (restaurante) é uma área fundamental dentro da cultura Google. A forte referência da gastronomia mineira e de todo seu conteúdo simbólico foi o ponto de partida para desenharmos esse espaço. Reconhecido como um dos mais importantes e ativos do país, o Mercado Central de Belo Horizonte nos serviu de inspiração, com seu vasto repertório de imagens e suas bancas de temperos.

Embora a imagem de uma banca de temperos tenha sido a referência inicial, nos parecia demasiado óbvia, talvez por gerar uma solução essencialmente decorativa. Diante das possibilidades de experimentação que o cliente nos permitia, propusemos em nova versão conceitual: uma instalação com prateleiras desde o piso até o teto, repletas de potes de tamanhos variados contendo combinações de minerais que emulassem a experiência visual de uma banca de temperos.

Essa abordagem deu um novo significado ao trabalho, que passou a estabelecer um jogo de ambiguidade sensorial no qual a percepção do conteúdo dos potes é inicialmente condicionada pelo ambiente do Café, deixando em aberto a possibilidade da descoberta da matéria que de fato preenche os potes: “temperos minerais”.

Máximo Soalheiro, uma importante referência no panorama atual da arte brasileira, foi convidado para ser responsável pela instalação. Combinados nas prateleiras do Café, os 2116 potes contemplam o espectro de praticamente todos os minerais presentes no estado de Minas Gerais. Suas combinações, ou suas proporções combinadas em diferentes “receitas”, permitiram a criação de 200 tons de uma paleta extraordinariamente local e autoral.

Para que os minérios chegassem a uma granulometria finíssima e em alguns casos impalpável, foram utilizadas máquinas e equipamentos do ateliê para queima, moagem, filtragem e preparo final (em sua maioria adaptados pelo artista). Curiosamente todos se assemelham aos de uma cozinha industrial – fornos, batedeiras, trituradores, moedores, peneiras, etc – como a da Google BHZ.

Uma vez montada, a instalação pode ser lida como uma grande tabela periódica contendo os elementos da paisagem ao redor. Essa associação orientou a proposta gráfica para os rótulos dos potes, com a identificação de apenas alguns potes, e não de todos, deixando o trabalho aberto à curiosidade e à interpretação dos visitantes.



Projeto Sede do Google, Belo Horizonte (Brasil)

Ano 2015/2016

Área 5.000.000 m²

Cliente Google

Management Google / CBRE

Arquitetos Bruno Campos, Marcelo Fontes e Silvio Todeschi (BCMF Arquitetos), Fernando Maculan e Mariza Machado Coelho (MACh Arquitetos)

Design Gráfico / Sinalização Hardy Design

Iluminação Atiaîa Design e LD Studio

Participações Especiais SUBdV, Máximo Soalheiro e Luis Gluck